ENTREVISTA: Cientista brasileira fala sobre importância da propriedade intelectual para a inovação

A jornada da brasileira Joana d’Arc Félix de Sousa como cientista começou com suas brincadeiras infantis no curtume perto de casa. Filha de curtidor e empregada doméstica, a professora, formada em Harvard, foi aclamada nacionalmente por sua defesa do ensino de ciências e por contribuir para que jovens de comunidades marginalizadas percebessem seu potencial para inventar, criar e empreender.

Em entrevista à Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI), Joana, que é detentora de várias patentes relacionadas ao setor coureiro-calçadista, discute sua pesquisa atual e compartilha opiniões sobre a importância da educação científica e o papel dos direitos de propriedade intelectual no fortalecimento da inovação do Brasil e no desempenho econômico de longo prazo.

A jornada da brasileira Joana d’Arc Félix de Sousa como cientista começou com suas brincadeiras infantis no curtume perto de casa. Filha de curtidor e empregada doméstica, a professora, formada em Harvard, foi aclamada nacionalmente por sua defesa do ensino de ciências e por contribuir para que jovens de comunidades marginalizadas percebessem seu potencial para inventar, criar e empreender.

Em entrevista à Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI), Joana, que é detentora de várias patentes relacionadas ao setor coureiro-calçadista, discute sua pesquisa atual e compartilha opiniões sobre a importância da educação científica e o papel dos direitos de propriedade intelectual no fortalecimento da inovação do Brasil e no desempenho econômico de longo prazo.

OMPI: O que te levou para a Química?

Joana d’Arc Félix de Sousa: Eu me apaixonei pela Química quando era muito jovem. Meu pai trabalhava em um curtume na cidade de Franca, no estado de São Paulo. Minha família e eu morávamos em uma casa perto do curtume, então, todos os dias, eu via os trabalhadores misturarem corantes e processar couro. Para mim, o jaleco branco usado pelo químico de curtume era a visão mais bonita. O curtume era uma grande parte do meu mundo, e minha ambição de infância era se tornar um químico, vestir um jaleco branco e trabalhar em um curtume.

OMPI: No que você está trabalhando no momento?

Joana d’Arc Félix de Sousa: Estamos trabalhando em vários projetos de pesquisa. Um deles envolve procurar maneiras de criar uma pele artificial com diferentes níveis de pigmentação. Outra é a exploração do uso de tecido ósseo artificial para remodelação, reconstituição e transplante ósseo. Um terceiro projeto é o desenvolvimento de gengiva artificial para corrigir defeitos estéticos. E também estamos desenvolvendo tecidos antimicrobianos para confeccionar roupas para pacientes e equipes médicas para minimizar infecções hospitalares.

OMPI: Fale um pouco sobre algumas de suas invenções.

Joana d’Arc Félix de Sousa: Ao longo dos anos, fiz muitos projetos de pesquisa e me tornei uma inventora em série. Minha pesquisa levou à criação de pele artificial semelhante à humana, cimento ósseo feito a partir de subprodutos das indústrias de couro e pesca, calçados antimicrobianos e roupas retardantes de chamas para bombeiros. Também desenvolvi fertilizantes orgânicos e organominerais a partir de resíduos sólidos do setor coureiro-calçadista e cimento verde e eco-eficiente que reduz o consumo de energia e as emissões de dióxido de carbono.

OMPI: O que te inspirou a fazer este trabalho?

Joana d’Arc Félix de Sousa: Minha pesquisa foi inspirada pela necessidade de encontrar maneiras de gerenciar a grande quantidade de resíduos gerados todos os dias pelo setor de couro e calçados em Franca e os desafios que as pessoas que trabalham nesse setor têm de enfrentar. Meu trabalho em pele artificial, por exemplo, surgiu depois que eu testemunhei um grave acidente em um curtume local, onde um trabalhador sofreu queimaduras em 95% de seu corpo. Minhas outras invenções foram igualmente inspiradas pela necessidade de encontrar soluções eficazes para superar as dificuldades experimentadas por meus alunos e suas famílias.

Meu trabalho no desenvolvimento de fertilizantes orgânicos surgiu de um desejo infantil de minimizar o impacto ambiental da indústria coureiro-calçadista e melhorar o ambiente local para as crianças que moram em torno do curtume. Esses fertilizantes são um uso alternativo dos resíduos sólidos produzidos pelo setor e fornecem aos agricultores uma fonte barata de nitrogênio para fertilizar suas terras. O objetivo de conciliar medidas de proteção ambiental com justiça social e eficiência econômica também inspirou meu trabalho no desenvolvimento de cimento “verde”.

OMPI: Quais foram os principais desafios que você enfrentou?

Joana d’Arc Félix de Sousa: Houve muitos desafios. Para começar, as pessoas não conseguiam entender por que alguém com pós-doutorado escolheria ensinar, quanto mais desenvolver um programa de pesquisa científica, em uma escola técnica. Infelizmente, no Brasil, muitos pesquisadores com maior nível acadêmico desaprovam as escolas técnicas. Na opinião deles, a pesquisa científica só pode ser realizada em grandes universidades e institutos de pesquisa. Mas meu trabalho com escolas técnicas demonstrou que é possível desenvolver pesquisa de ponta e proteger patentes dentro dessas escolas e com a ajuda de estudantes socialmente vulneráveis.

OMPI: Como você gostaria de ver o cenário da inovação evoluir no Brasil?

Joana d’Arc Félix de Sousa: Gostaria de ver o governo revisar sua abordagem em relação à educação. Com o corte no orçamento federal da ciência, a comunidade de pesquisa do Brasil não pode mais depender apenas de financiamento do governo ou de dinheiro público. Temos que trabalhar com o setor privado e com a indústria. Embora isso possa ser difícil, não é impossível. A melhor colaboração da indústria pode ajudar a transformar o panorama de inovação do país e impulsionar o desenvolvimento tecnológico e a atividade nacional de patenteamento. Ao proteger seu trabalho com direitos de propriedade intelectual, os cientistas podem obter um retorno sobre tempo, energia e investimento feito para desenvolvê-lo.

O Brasil precisa investir no fornecimento da educação básica de qualidade. Isso significa investir em infraestrutura e em professores e treinamento de professores. Os tomadores de decisões também precisam elaborar uma política coerente para ciência, tecnologia e inovação e definir áreas prioritárias de ação.

OMPI: Você pode explicar por que é importante que os cientistas conheçam o sistema de propriedade intelectual?

Joana d’Arc Félix de Sousa: Os cientistas precisam conhecer o sistema de propriedade intelectual para que possam proteger o novo conhecimento que criam, e para que estejam em condições de licenciar e comercializar esse conhecimento para apoiar outras iniciativas de pesquisa.

Os cientistas tendem a publicar seu trabalho e dar pouca atenção a protegê-lo com direitos de propriedade intelectual. Isso os deixa expostos. Se alguém com mais dinheiro pega esse trabalho, aplica-o e ganha dinheiro com ele, o cientista não tem meios legais de reivindicar qualquer retorno financeiro resultante da tecnologia desenvolvida, por não tê-lo protegido com direitos de propriedade intelectual.

Com uma patente em mãos, os pesquisadores podem comercializar sua tecnologia e decidir os termos pelos quais transferi-la, por meio de um acordo de licenciamento, por exemplo. Protegendo seu trabalho com direitos de propriedade intelectual, os cientistas podem obter um retorno sobre o tempo, a energia e o investimento feito para desenvolvê-lo. Podem até gerar um excedente para fazer novos investimentos em sua área de conhecimento.

OMPI: Quantas patentes você detém? Elas estão protegidos internacionalmente?

Joana d’Arc Félix de Sousa: Eu tenho 15 patentes e tenho protegido várias de minhas invenções, incluindo um processo de extração de colágeno de resíduos de couro curtido, em diferentes países, usando o Tratado de Cooperação de Patentes da OMPI. O tratado é vantajoso porque fornece aos solicitantes mais tempo — até 30 meses a partir da data de apresentação do primeiro pedido de patente no escritório nacional de propriedade intelectual — para considerar se deve ou não prosseguir com o processamento do seu pedido, levando em conta os resultados de pesquisa informal de patentes que está disponível no sistema. Além disso, a publicação provisória de um pedido oferece aos requerentes alguma proteção antes da concessão efetiva de uma patente em diferentes jurisdições.

OMPI: Conte-nos sobre seu trabalho com jovens e sobre o projeto CurtEENDEDORISMO.

Joana d’Arc Félix de Sousa: Montei o projeto CurtEENDEDORISMO na Escola Técnica Estadual (ETEC), em Franca, em 2013. A cidade é conhecida por seu setor de calçados e sofre com altos níveis de poluição ambiental, desemprego, pobreza e analfabetismo. O projeto envolve jovens, particularmente aqueles de origem desfavorecida, e tenta despertar seu interesse pela inovação, criatividade e empreendedorismo.

Eu prefiro trabalhar com jovens socialmente vulneráveis ​​— aqueles envolvidos no tráfico de drogas e na prostituição — porque eles são frequentemente marginalizados. O projeto visa reduzir as taxas de abandono escolar e aumentar a autoestima dos alunos. O Curso Técnico de Tanning do programa, por exemplo, adota uma nova metodologia de ensino e aprendizagem para promover uma nova forma de empreendedorismo. Dá aos alunos a oportunidade de aprender, em termos práticos, como usar a fauna e a flora brasileiras no curtimento artesanal e sustentável de peles comestíveis exóticas (frango, peixe, porcos e gado). Abre os olhos para toda uma gama de oportunidades de emprego e geração de renda.

OMPI: Por que a educação em ciências é tão importante?

Joana d’Arc Félix de Sousa: A educação científica é o caminho para construir um mundo melhor. Através da educação, a criança adquire as ferramentas para realizar seu potencial inovador e criativo. Um investimento na juventude do Brasil fortalecerá a sociedade brasileira e o desempenho científico e tecnológico do país.

Infelizmente, o sistema educacional tende a falhar com crianças em áreas mais pobres. Esses jovens não têm a oportunidade de adquirir as habilidades necessárias para ganhar uma vida decente. Com demasiada frequência, os jovens — especialmente os homens jovens — sem as habilidades e a capacidade de aprendizado que uma sólida educação científica proporciona acabam se voltando para o crime, acreditando que é sua única opção. A educação científica ajuda a reduzir as desigualdades e cria oportunidades para jovens talentosos perceberem seu potencial, independentemente de sua origem social.

O investimento em educação científica desde a mais tenra idade é a chave para a construção de uma sociedade democrática, economicamente produtiva, mais humana e sustentável. Incentivar a pesquisa científica nas escolas ajuda os jovens a perceberem que eles também têm a capacidade de criar, inovar e construir um negócio. À medida que percebem o valor prático de suas aulas, as taxas de evasão caem e os alunos adquirem segurança e confiança para decidir seu próprio futuro. É somente através da educação que uma transformação social efetiva pode ser alcançada. A educação científica é o caminho para construir um mundo melhor.

OMPI: Que tipo de impacto o projeto tem gerado?

Joana d’Arc Félix de Sousa: Até 2017, cerca de 100 alunos foram beneficiados pelo projeto. Alguns deles ajudaram a inventar novas tecnologias, enquanto outros melhoraram as tecnologias existentes com suas inovações.

Este ano, 20 alunos estão se beneficiando de bolsas de iniciação científica e estão desenvolvendo 15 novas invenções. As bolsas e os projetos de pesquisa são financiados pelo setor privado. Somos particularmente gratos à LYRA Navegação Marítima, empresa sediada no Rio de Janeiro, pelo apoio financeiro que possibilitou realizar nosso sonho de transformar vidas através da educação científica.

Meu objetivo é replicar o projeto em todo o Brasil. Incluir os jovens nas atividades de iniciação científica e ensinar habilidades fundamentais, como o raciocínio lógico, que servirão em suas vidas profissionais, seja na indústria ou na academia. Os alunos também são um importante indicador da qualidade dos cursos oferecidos e do desempenho dos professores. Eles são um componente essencial do nosso modelo pedagógico.

OMPI: O que precisa ser feito para melhorar os níveis de conscientização sobre propriedade intelectual entre os jovens brasileiros?

Joana d’Arc Félix de Sousa: Infelizmente, poucos jovens brasileiros sabem sobre propriedade intelectual. No entanto, é muito importante que eles entendam que a ela é um elo entre conhecimento, desenvolvimento tecnológico e comércio. Eles também precisam saber como proteger o novo conhecimento que criam e que, usando o sistema de propriedade intelectual, podem recuperar tempo, energia e esforço investidos em sua criação. Criar novos conhecimentos envolve muito investimento, e os direitos de propriedade intelectual são a melhor maneira de recuperar esse valor. O Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) do Brasil tem um papel importante a desempenhar na melhoria dos níveis de conscientização entre os jovens. Palestras ou mini-cursos que enfatizem as vantagens de proteger o conhecimento nas escolas em todo o Brasil seriam muito úteis nesse sentido.

OMPI: Que conselho você tem para os jovens com aspirações de inventar ou criar?

Joana d’Arc Félix de Sousa: Nunca desista de seus sonhos. Se fizer isso, reduz as chances de encontrar a felicidade e aumenta as chances de decepção e frustração. Sempre defina metas e continue trabalhando para alcançá-las. Ignore aqueles que não acreditam na sua capacidade de realizar seu sonho. Independentemente dos obstáculos que surgirem, mantenha um pé na frente do outro e siga em frente. Os jovens precisam entender que podem ser bem-sucedidos por meio do aprendizado. Habilidades podem ser aprendidas. Isso significa que todos os jovens podem alcançar seus objetivos. Eu sou um exemplo vivo disso. Passei por inúmeras dificuldades, preconceitos e humilhações, mas nunca parei de sonhar. Tenha fé e use seus contratempos como ferramentas para ganhar na vida.

Projetos de pesquisa liderados por Joana D’Arc Félix de Sousa:

Pele artificial
Pele artificial semelhante à humana, desenvolvida a partir de subprodutos da indústria do couro, pode ser usada para pacientes que necessitam de transplante de pele, incluindo vítimas de queimaduras, pacientes com feridas crônicas e outras patologias dermatológicas. A pele artificial também oferece uma maneira mais barata de testar produtos cosméticos e farmacêuticos sem usar animais vivos.

Cimento ósseo
Desenvolvido a partir de resíduos reciclados de subprodutos das indústrias de couro e pesca, este material favorece técnicas cirúrgicas minimamente invasivas para a remodelação da massa óssea, transplantes ósseos e tratamento de tumores ósseos. Também pode ser usado no tratamento de fraturas, ortopedia, ortodontia e diversas áreas especializadas em odontologia.

Calçado antimicrobiano
Calçado antimicrobiano inibe o crescimento de bactérias e fungos. O movimento do sapato causa a liberação de antimicrobianos embutidos na parte superior e no revestimento de couro do sapato, o que evita micoses, chulé e fissuras. Os sapatos ativam a circulação sanguínea e criam um ambiente seco e confortável para os pés saudáveis.

Equipamento de proteção pessoal para bombeiros
Roupas feitas de couro sustentável com propriedades superiores de resistência à água e propriedades retardadoras de chamas ajudam a proteger a saúde e o bem-estar físico dos bombeiros brasileiros.

Fertilizantes orgânicos organomineral
Esses fertilizantes são um subproduto dos resíduos sólidos produzidos no setor de couro e calçados. Eles fornecem uma nova fonte de nitrogênio de baixo custo para os agricultores fertilizarem suas terras. Sua produção ajuda a melhorar as credenciais ambientais do setor de couro e calçados.

Cimento verde
O cimento verde e eco-eficiente reduz o consumo de energia e as emissões de dióxido de carbono (CO2) associadas à produção tradicional de cimento, substituindo 80% do clínquer normalmente utilizado em enchimentos calcários de couro extraídos de couro de calçados e fábricas automotivas. A formulação produz cimento confiável e de alta qualidade e reduz as emissões de energia em até 94%, melhorando assim a pegada ambiental do setor de couro e calçados.

Fonte: ONUBR

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